Levantamento apresentado ao Sincofac e a representantes das farmácias mostra predominância de pequenos negócios no setor e analisa possíveis reflexos da proposta sobre custos, emprego, preços e competitividade

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Acre (Fecomércio-AC) apresentou, na tarde desta terça-feira (15), na sala de reuniões da instituição, em Rio Branco, um estudo técnico sobre os possíveis impactos econômicos do Projeto de Lei nº 1.559/2021 no comércio varejista farmacêutico acreano. O levantamento, apresentado ao Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Estado do Acre (Sincofac) e a representantes das farmácias, analisa a realidade das empresas e do mercado de trabalho no Estado diante da proposta de criação de um piso salarial nacional de R$ 6,5 mil para os profissionais da categoria.
Participaram da apresentação o superintendente da Fecomércio-AC, Luiz Pontes; o presidente do Sincofac, Daniel Frach; o economista da Federação e responsável pela elaboração do estudo, William da Silva Pinto; o especialista em Vigilância Sanitária e Gestão da Assistência Farmacêutica, Edmilson Alves; seu convidado, o ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom; além de representantes das farmácias.
O estudo foi elaborado a partir de informações oficiais da Receita Federal do Brasil, Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), Ministério do Trabalho e Emprego, Conselho Federal de Farmácia (CFF), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Câmara dos Deputados, entre outras fontes públicas. A análise considera a estrutura empresarial do setor, o mercado formal de trabalho, o perfil remuneratório e os possíveis efeitos econômicos da eventual implementação do piso.

Para o superintendente da Fecomércio-AC, Luiz Pontes, a apresentação do levantamento permite que empresários e profissionais discutam o tema a partir de dados específicos da realidade econômica acreana.
“A Fecomércio-AC tem buscado contribuir para os debates que impactam diretamente o setor produtivo com informações técnicas e dados que retratem a realidade do Acre. Este estudo é importante justamente porque nos permite compreender como uma proposta de alcance nacional pode repercutir em uma economia com características próprias, especialmente em um segmento formado majoritariamente por micro e pequenas empresas. Não se trata de desconsiderar a importância da valorização dos profissionais farmacêuticos, mas de colocar à mesa informações que permitam discutir essa valorização juntamente com a sustentabilidade das empresas, a manutenção dos empregos e a capacidade de adaptação do setor”, destacou Luiz Pontes.
Na avaliação do presidente do Sincofac, Daniel Frach, os dados apresentados ajudam o setor a dimensionar os possíveis efeitos da proposta e reforçam a importância do diálogo entre empresas e profissionais.

“Para o Sincofac, esse estudo é muito importante porque traz números da realidade das empresas do nosso Estado e nos permite avaliar com mais clareza os possíveis efeitos de uma mudança dessa dimensão. Sabemos da importância do farmacêutico para o funcionamento das nossas empresas e reconhecemos a necessidade de valorização desses profissionais. Ao mesmo tempo, precisamos considerar que a grande maioria dos estabelecimentos do setor no Acre é formada por pequenos negócios, que possuem uma capacidade menor de absorver aumentos expressivos nos custos. O que defendemos é um diálogo equilibrado, que considere tanto a valorização profissional quanto a sustentabilidade das empresas, a preservação dos empregos e a continuidade dos serviços prestados à população”, afirmou o presidente do Sincofac, Daniel Frach.
Pequenos negócios predominam no setor farmacêutico
Um dos principais pontos apresentados pelo estudo é a composição do comércio farmacêutico acreano. Em julho de 2026, o Acre possuía 473 estabelecimentos ativos no comércio varejista de produtos farmacêuticos, correspondentes a aproximadamente 0,88% dos estabelecimentos ativos no Estado.
Desse total, 89,64% são optantes pelo Simples Nacional, demonstrando a forte presença de micro e pequenas empresas no segmento. Segundo o levantamento, essa característica é especialmente relevante para a análise porque empresas de menor porte podem apresentar menor capacidade financeira e operacional para absorver aumentos expressivos de custos.
A maior concentração do setor está em Rio Branco, que possui 194 estabelecimentos, o equivalente a 41,01% do total, seguida por Cruzeiro do Sul, com 71 unidades, equivalentes a 15,01%. Juntos, os dois municípios concentram 55,02% das farmácias ativas no Estado.
Acre possui 448 vínculos formais de farmacêuticos
No mercado de trabalho, os dados da RAIS mostram que os estabelecimentos enquadrados nos segmentos analisados possuíam 1.743 vínculos formais em dezembro de 2025.
Considerando especificamente os profissionais farmacêuticos, foram registrados 448 vínculos ativos no Acre em 2025. Desse total, 254 estavam em Rio Branco, o equivalente a 56,69% dos registros estaduais.
Outro dado destacado é a diferença entre a remuneração média observada no Estado e o valor previsto no projeto. Em 2025, a remuneração média dos farmacêuticos acreanos foi de R$ 3.079,27, enquanto o PL nº 1.559/2021 estabelece piso salarial de R$ 6.500.
A diferença é de R$ 3.420,73 por profissional, o que representa um acréscimo aproximado de 111,09% sobre a remuneração média identificada pela RAIS.
Estudo estima impacto sobre o custo de contratação
A análise da Fecomércio-AC considera que uma eventual alteração do salário-base também repercutiria sobre encargos e provisões trabalhistas calculados a partir da remuneração.
Como 89,64% dos estabelecimentos analisados são optantes pelo Simples Nacional, o estudo utilizou esse enquadramento como referência para uma simulação dos custos.
Considerando salário-base, FGTS, provisão para 13º salário e férias acrescidas do terço constitucional, o custo mensal estimado da contratação de um farmacêutico passaria de aproximadamente R$ 3.924,36 para R$ 8.283,89. A diferença corresponde a um acréscimo estimado de R$ 4.359,53 por profissional ao mês.
A estimativa não inclui outros custos que podem existir de acordo com a realidade de cada empresa, como benefícios previstos em convenções coletivas, adicionais legais, horas extras, vale-transporte e assistência médica.
Possíveis efeitos sobre emprego, preços e competitividade
Entre os possíveis reflexos econômicos analisados estão o aumento dos custos operacionais, pressão sobre as margens de lucro, necessidade de adaptações na gestão financeira, revisão das decisões de contratação e investimento e eventual repasse parcial dos custos aos preços.
Em relação ao emprego, o estudo aponta que alterações significativas nos custos da mão de obra podem influenciar as decisões empresariais, com possíveis revisões no ritmo de novas contratações, reorganização de equipes e processos internos e busca por ganhos de produtividade.
Quanto aos preços, o levantamento observa que as condições de concorrência podem limitar o repasse integral dos custos ao consumidor. Nesse cenário, empresas poderiam absorver parte da elevação por meio das margens ou realizar reajustes graduais, dependendo das condições de mercado.

O economista da Fecomércio-AC, William da Silva Pinto, destacou que o objetivo do trabalho é fornecer elementos técnicos para uma discussão que considere as particularidades econômicas do Acre.
“Nosso objetivo com este estudo foi trazer evidências do contexto específico do Acre para qualificar o debate. Identificamos um setor formado majoritariamente por empresas optantes pelo Simples Nacional e uma diferença significativa entre a remuneração média observada e o piso discutido. Podemos verificar que uma alteração dessa magnitude pode exigir adaptações importantes por parte das empresas em relação a custos, competitividade, margem e preços. A valorização do profissional farmacêutico e a sustentabilidade econômica das empresas precisam ser consideradas conjuntamente na discussão.”
Estudo busca subsidiar debate
A Fecomércio-AC ressalta que os possíveis efeitos apresentados no levantamento não constituem previsões definitivas. A dimensão dos impactos dependerá de fatores como o texto final eventualmente aprovado pelo Poder Legislativo, as condições econômicas nacionais e regionais, o ambiente concorrencial e a capacidade de adaptação de cada empresa.
Nas considerações finais, o estudo reconhece a importância da valorização da profissão farmacêutica e da busca por condições adequadas de remuneração. Ao mesmo tempo, aponta que eventuais mudanças na estrutura salarial devem considerar as diferenças regionais, a capacidade financeira das empresas e possíveis reflexos sobre emprego, competitividade, custos operacionais e preços ao consumidor.